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A Reforma do Século XVI

No dia 31 de outubro, protestantes de todo o mundo comemoram o Dia da Reforma. A Igreja Presbiteriana da Ilha do Governador (IPIG) não poderia deixar de se manifestar em regozijo por tão significativo evento na história da Igreja Cristã. Festejamos o retorno de parcela ponderável da Igreja Ocidental aos padrões doutrinários, litúrgicos e de governo desenvolvidos até o século V. A partir desse período da história eclesiástica, começaram a ocorrer desvios da Escritura e da sã doutrina. Essa situação foi se agravando ao longo do tempo, de modo que, a partir do século X, as marcas essenciais da Igreja: unidade, santidade, universalidade e apostolicidade, ficaram tão esmaecidas e deturpadas que somente uma Reforma as poderiam restaurar. A chamada Reforma Católica do Século XI, em especial o segmento monástico, e a luta dos chamados pré-reformadores dos séculos XIV e XV, com destaque para Wycliffe e Hus, obtiveram apenas sucessos parciais, que pouco afetaram a vida degenerada da Igreja. Foi então que Deus levantou Martinho Lutero, um monge alemão, para liderar um movimento definitivo de Reforma. 

Lutero nasceu na Alemanha, em 1483. O desejo de seu pai é que ele fosse advogado. Para tal, aos dezoito anos, ingressou na conceituada universidade de Erfurt, onde passou quatro anos. Mas, para desapontamento do pai, quando já estava para iniciar sua vida profissional como advogado, resolveu tornar-se um monge beneditino.

No mosteiro, Lutero sustentou consigo mesmo uma tremenda batalha espiritual. Tinha entrado ali à procura da salvação, mas não encontrou a paz de espírito desejada. Para tentar minorar a angústia do Reformador, seus superiores o mandaram lecionar Filosofia na nova universidade de Wittenberg.  Além de sua função como professor, Lutero prosseguiu, em Wittenberg, seus estudos bíblicos, tornando-se, em 1512, doutor em teologia.

No ano seguinte, enquanto lia a Carta aos Romanos, deparou-se com o texto “O justo viverá por fé” (Rm 1.17 b) e concluiu que a salvação lhe pertencia simplesmente pela confiança e pela fé em Deus, através de Jesus Cristo, e não por qualquer obra ou ato que ele próprio realizasse. Esta é a verdade da justificação pela graça mediante a fé; e contra esta verdade, e acima dela, pairava o ensino da igreja medieval que o homem pode alcançar a salvação pelas obras e pelos sacramentos.

Certo dia, apareceu, nas cercanias de Wittenberg, um homem chamado João Tetzel enviado para vender indulgências emitidas pelo papa, que, em última análise, ofereciam diminuição das penas do purgatório. Ao saber do fato, Lutero se indignou, uma vez que o tráfico das indulgências estava desviando o povo do ensino a respeito de Deus e do pecado, enfraquecendo seriamente a vida moral do povo. Decidiu, então, enfrentar tão grande erro e abuso.

Nas universidades medievais, era costume apor-se, em lugares públicos, a defesa ou ataque de certas opiniões. Esses escritos eram chamados “teses”, nas quais se debatiam as idéias e se convidavam todos os interessados para a discussão acadêmica. No dia 31 de outubro de 1517, véspera do dia de Todos os Santos, quando muita gente comparecia à igreja do castelo de Wittenberg, Lutero afixou, nas portas dessa igreja, 95 teses que tratavam principalmente do caso das indulgências. Nelas, ele declarava que as indulgências não tinham poder para remover a culpa ou afetar a situação das almas no purgatório, e que o cristão arrependido tinha o perdão vindo diretamente de Deus. As teses negavam, ainda, o pretenso poder da igreja de ser mediadora entre o homem e Deus e de conferir perdão aos pecadores.

Diante das teses e da repercussão que elas alcançaram, o papa intimou Lutero a comparecer a Roma para se justificar. Ora, isso significaria morte certa. Lutero não escaparia da fogueira. Mas, para felicidade do jovem monge, as ordens do papa só poderiam ser executadas se o príncipe que governava a região de Wittenberg as aprovasse. Por providência divina, o Eleitor da Saxônia protegeu seu súdito, ordenando que o caso fosse discutido na Alemanha. No debate que se seguiu, Lutero foi mais longe ainda, declarando que o papa não tinha autoridade divina e que os concílios eclesiásticos não eram infalíveis. Essas afirmações configuraram um rompimento definitivo com a Igreja Católica Romana.

Imagem retirada da internet. Disponível no Google Imagens.

Aberta assim a luta, o Reformador prosseguiu sem temor, agindo com muita rapidez. O que mais chocou a Igreja Católica, que até hoje ainda classifica Lutero como herege, foi sua afirmativa de que nem o papa, nem os sacerdotes tinham poderes sobrenaturais. Ora, caso essa idéia encontrasse apoio e adesão, a Igreja sofreria um tremendo golpe em sua autoridade. Lutero passou então a provar que todos os cristãos são sacerdotes, tendo acesso à presença de Deus mediante a fé em Cristo. Negou que somente o papa pudesse interpretar as Escrituras. Estas, disse ele, podiam ser interpretadas por qualquer crente sincero. Em vista de suas afirmações, o povo viu que qualquer pessoa podia ser verdadeiramente cristã sem ter a necessidade de prestar obediência ao papa.

Como era de se esperar, Lutero, juntamente com seus principais seguidores, foi excomungado pelo papa, mas esse ato só teria valor se fosse aprovado pelo parlamento alemão, chamado “Dieta”, que foi convocado para se reunir, em 1521, na cidade de Worms. Lutero foi instado pelo imperador a se retratar de seus atos e livros que escrevera, ao que o Reformador respondeu: “É impossível retratar-me, a não ser que me provem que estou errado, pelo testemunho das Escrituras... Minha consciência está alicerçada na Palavra de Deus. Assim Deus me ajude. Amém” Diante das palavras de Lutero, houve grande confusão. De um lado os partidários do papa, que gritavam: “à fogueira com ele”; de outro, seus compatriotas alemães, que fizeram um escudo humano para protegê-lo, retirando-o do ambiente. O Parlamento decretou Lutero fora da lei e a destruição dos seus simpatizantes, mas os alemães o protegeram, escondendo-o em um castelo amigo. Durante o período em que esteve recluso, Lutero aproveitou para traduzir a Bíblia para o alemão, cujas cópias foram colocadas nos bancos das igrejas. Os dotes musicais de Lutero o impeliram a redigir a letra daquele que viria a ser o hino da Reforma: “Castelo Forte é o Nosso Deus”.

Em 1529, reunida em Augsburgo, a Dieta decretou que o protestantismo seria exterminado pela guerra. Mas, pouco antes que viesse a guerra, em 1546, Lutero faleceu aos sessenta e três anos. Por quase trinta anos fora ele o líder de um dos maiores movimentos religiosos da história.

Sempre houve uma chama acessa na Igreja, mantida pelo Espírito Santo. O movimento da Reforma foi um reavivamento dessa chama, espalhando-se, em pouco tempo, por grande parte da Europa. Houve problemas, tanto externos, como internos, com momentos mais favoráveis, e ocasiões em que parecia que a Reforma iria sucumbir. Hoje, para evitar que a Reforma se torne apenas um fato histórico, mais do que nunca é preciso que nos mantenhamos fiéis ao aforismo latino: “Icclesia reformata, semper reformanda” (Igreja Reformada sempre se mantendo fiel aos princípios da Reforma).

A Reforma do século XVI é, pois, depois do advento do Cristianismo, o maior evento da História da Igreja, servindo como marco de divisão entre o fim da Igreja Medieval e a Igreja Moderna. Finalmente, ela nos mostra que o objetivo último do protestantismo evangélico é levar cada homem à responsabilidade pessoal e à união vital com Cristo, o único e suficiente Senhor e Salvador.

Texto:  José Roberto da Silva Costanza

Presbítero Emérito da Igreja Presbiteriana da Ilha do Governador

Professor do Seminário Teológico Simonton do Rio desde 1999.

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